Meu Golpista Favorito: Onze Horas no Terminal Tietê
Taxímetro "quebrado" e a arte de negociar ao estilo Sun Tzu
GOLPE EM SÃO PAULO
Atraso de empresa que quase custou caro ✓
Xadrez verbal no trânsito de SP ✓
O que o golpista não sabia sobre o passageiro?
BEM-VINDO 🌊
Do terminal Barra Funda ao Tietê — em dez minutos e duas malas.
Entre! O mate tá pronto!
Certa vez, fui visitar minha irmã numa cidade distante. De lá, pensei: dá para visitarmos Campos do Jordão. Um ônibus até São Paulo e depois outro.
Fiz o plano, comprei as passagens e assim fomos — viagem tranquila, tudo certo. De repente, percebi que o ônibus estava atrasado. Começou a bater uma certa ansiedade.
Vou perder o segundo ônibus. Não terei tempo de me deslocar.
A companhia atrasou 50 minutos! Com mais 10, eu formalizaria a denúncia na ARTESP. Infelizmente, a regulamentação tolera até uma hora de atraso.
Rapidamente, comecei a traçar meus planos com os 15 minutos que restavam. Ficou assim: da Barra Funda, pegar um táxi até o Terminal Tietê — cinco minutos para sair do terminal, correr e embarcar, mais dez até o destino.
Fizemos isso tudo às pressas, eu e minha noiva, com duas malas.
Tínhamos duas escolhas: tentar ou falhar. Se há possibilidade, conte com a sorte.
Encontrei um “taxista”.
— O jovem precisa de uma corrida?
— Sim! O senhor consegue me deixar no Terminal Tietê às 11:00?
Ele olhou para mim e disse, com convicção:
— Consigo!
— Então, vamos.
Fui conversando com o senhor taxista. Cometi um erro: comentei que íamos a Campos do Jordão.
O taxista até era golpista, mas era um homem de palavra — não é que ele realmente nos levou da Barra Funda ao Terminal Tietê em dez minutos? Um gênio do asfalto! Foi uma aventura e tanto.
Eu já havia percebido que era golpe, pois o taxímetro estava “quebrado”. Lembrei logo do Nômade Raiz: “Cuidado, meus amigos, tá cheio de golpes por aí!”
Quando paramos, perguntei:
— Quanto ficou?
— Cento e trinta reais — ele respondeu com uma tranquilidade mineira. Como se fosse o mais natural do mundo.
— Como? Cento e trinta? Não...
— Tá bom, faço cento e dez pra vocês.
O que o taxista não sabia era que o jovem tinha a serenidade de um lutador, a estratégia de Sun Tzu e a astúcia de João Grilo.
Meu golpista favorito perdeu a batalha na dissimulação. Achou que conhecia o terreno — até conhecia — todavia, não conhecia o inimigo.
“Preparar-se de antemão para todas as contingências é a maior das virtudes.”
Nosso xadrez verbal continuou.
— Mas, senhor, uma corrida dessas sairia de quarenta a cinquenta reais.
— É porque não sou aplicativo. Sou particular, por isso é mais caro.
— Senhor, não tenho dinheiro. Eu havia previsto cinquenta reais para isso.
Comecei a abrir a carteira rapidamente e a tirar os trocados que estavam ali. Até tinha cem reais, no entanto a arte do blefe exige confiança.
— Tá vendo? Não tenho dinheiro! Apenas trinta e cinco reais. Estou pegando ônibus, o senhor acha mesmo que temos dinheiro?
Perguntei rapidamente à minha noiva — ainda bem que ela entrou no teatro.
Ela tirou da carteira mais trinta reais.
O “taxista”, vendo aquela cena, com aquele tanto de nota picada caindo no banco, compreendeu a realidade.
— Tá bom. Tá pago.
Saímos do carro. Ele desceu as malas cordialmente, como um gentleman profissional. Agradeci de verdade, de coração — pela generosidade de correr pelo trânsito de São Paulo e nos entregar no horário.
Não guardei raiva do sujeito. Era só um cidadão tentando ganhar a vida por vias tortas.
Corremos pelo terminal do Tietê. Fomos os últimos a entrar no ônibus.
11h06 — o ônibus partiu. E a minha viagem estava salva.
Se eu não estivesse indo a Campos — passeio caro — até teria deixado cem reais para o golpista.
Ele errou na estratégia. Bastaria ter dito:
“Jovem, fiz por você o que ninguém faria. A corrida vale X, mas me deixe cem reais. Preciso pagar as contas e sustentar a família.”
Teria falado com o meu arquétipo sábio — e eu concordaria. O problema foi que ele arrumou confusão com o intelectual.
A intenção da batalha define o rumo da guerra.
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🧭 GLOSSÁRIO
ARTESP — Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo.
Campos do Jordão (SP) — É o município com a sede administrativa mais elevada do Brasil, situada a 1.628 metros de altitude na Serra da Mantiqueira.
Nômade Raiz — Canal do YouTube sobre viagens. Alerta frequente: golpes nos turistas
Sun Tzu — Estrategista chinês (544–496 a.C.). Autor de A Arte da Guerra.
Terminal Tietê (SP) — Maior terminal rodoviário da América Latina.






