Jung para Darcy: "A Torre não enxerga a Floresta"
Da mandala Suíça à mata brasileira — a integração que falta
E se Jung e Darcy pudessem conversar? Este texto aposta que sim — e que essa conversa revelaria exatamente o que paralisa o pensamento brasileiro. É fragmentado? Sim. Como o próprio país que discute. Entre na fogueira. O mate está pronto!
Chico Xavier, o famoso médium brasileiro, moveu seus pauzinhos e estabeleceu uma ponte entre o céu brasileiro e o céu suíço.
Chico: Alô! Deus Pai, tenho um pedido: chame a alma do Jung e depois a do Darcy Ribeiro.
Deus: Você está pensando que eu sei onde está todo mundo? O universo é tão vasto quanto a minha consciência.
Chico: Painho, do céu, é só procurar pelas montanhas por algum castelo feito à mão; e o brasileiro você procura em alguma mata brasileira, dançando com os indígenas.
Deus, já bolado, resolveu colaborar; Chico era famoso e poderia causar alguma rebelião.
Num instante, o cenário consciencial de Jung e Darcy se funde. A paisagem surge entre castelos de pedra e floresta amazônica.
Darcy: Salve, grande Jung!
Jung: Olá, grande Darcy!
J: Fico feliz neste contato. Finalmente posso trabalhar a psique do brasileiro.
D: Eu também, caro Jung, respeito-te pela originalidade. É um homem que pensa! Lá na minha terra havia muitos que fingiam pensar.
J: Isso é completamente normal. É a natureza humana, entre som e fúria. Quem ficou preso no ego tenderá a fingir a vida toda, inclusive para si.
D: Você é realmente um gênio da raça, tira insights até do absurdo.
Depois de se sentarem em volta da fogueira e tomarem um bom mate, a conversa flui...
J: O que deseja falar, Darcy?
D: Quero que você passe a minha teoria à luz da psicologia.
J: Certamente! Hum, deixe-me pensar. Vocês estudaram tanto, mas negligenciaram esta tão nobre e nova ciência. Não adianta ler Marx e companhia sem passar pelos grandes psicólogos. Ora, primeiro conheça o humano e depois sua criação/alucinação.
D: É porque não tínhamos muito contato em nossa época de estudante. Então, ficou uma lacuna no nosso pensamento. Sabe, a ‘brasileiragem’ não cita psicólogos, nunca vi, pelo menos. E isso é triste; se eu pudesse olhar o povo brasileiro novamente, faria esta integração.
J: Não só isso, o seu povo tem dificuldade na comunicação. É um ruído comunicacional que se estabeleceu e não quer deixá-los. A geração literária possui uma dificuldade abissal para entender a geração áudio/visual. Quero que você entenda que são duas mentes operando diferentemente.
J: Vocês precisam descer da torre, Darcy.
D: Descer? Para onde?
J: Para o mundo deles. TikTok, YouTube, Instagram. Lá onde vivem.
D: Mas aquilo é alucinatório!
J: “Aparentemente. Mas é onde estão. E alguém precisa ir até eles, ou o abismo intergeracional só crescerá. Eles não cresceram lendo clássicos, como vocês, mas isso não os exclui do debate; também possuem sabedoria.
Vocês convivem com três gerações diferentes, com diferenças de ideias e valores.
D: Meu camarada Jung, que bom ouvi-lo no auge de sua experiência. Você sabe que não tenho medo de ousar, né?! Construí escolas embaixo do sambódromo, no meu tempo. Deixei um ministro da França de queixo caído!
Entendo a sua preocupação. Aqui na tribo, todos estão, de certa forma, em comunhão com uma visão. Lá no Brasil, lugar de muitos Brasis, a comunhão é fragmentada. Cada lugar possui suas particularidades e isso, na hora de fechar uma visão geral, não conclui. Por isso, alguns repetem o velho clichê de que o Brasil é o país do futuro.
J: Olha só, isso não é algo ruim. O que vocês precisam é unir o essencial dentro de suas particularidades; a palavra é integração. Se vocês usassem o humor da ‘brasileiragem’ para fazer política, vocês avançariam ‘50 em 5’. Há potência criativa, todavia precisa de algum direcionamento. Eu aposto, Darcy, se você estivesse lá, focaria um pensar ao avesso.
Você não é só um homem da academia; você viveu na floresta, lugar onde o futuro não existe. A vida acontece na imersão; se bobear, a onça te pega. Ora, isso elevou o seu pensar a níveis inimagináveis, diferentemente de aqueles que vivem em ambiente condicionado, seguro e artificial.
D: Estou gostando do rumo da conversa. Você sabe que, no final do meu livro, eu mantive a esperança e disse: “[...] nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”.
J: Isso é maravilhoso! É disso que vocês precisam. Mas o que você não pensou era como fazer. Você deu um diagnóstico e mostrou a visão. Faltou apontar as trilhas, e isso falta ao seu povo em geral; vivem a filosofar e não arrumam a rua dos bairros.
Partem sempre do macro sem resolver o micro. Ignoram o micro por acharem que é irrelevante. Ledo engano: tudo o que está fora, está dentro; tudo o que está em cima, está embaixo. O intelectual não entende o nível do guru; o sábio opera em todos os mundos, micro e macro, pois entende que é o mesmo. O sábio sabe que a flor que ele olha está fora, mas só a enxerga porque está dentro dele.
Lá no seu país, há grandes pessoas que operam pelas beiradas; enquanto alguns vivem a discutir, eles estão construindo e operando com o material e a realidade que possuem. Pesquisem, por exemplo, a vida do Lama Padma Samten, e vocês entenderão o que quero dizer. Há muitos fazendo e deixando um vasto legado sem serem reconhecidos.
D: Meu povo, como você está dizendo, precisa então aprender a trocar o estado operacional e olhar de mente? Mas como fazer isso? Tudo contribui para a conversa não avançar: os psicólogos não tocam em política, as bolhas digitais criam mundos separados, o jornal burguês está preso no século passado, os jovens estão no YouTube/TikTok, os políticos estão presos na corrida eleitoral, os empresários nos lucros, o mercado financeiro na especulação... oh, céus! Estão todos presos em bolhas de realidade!
J: Darcy, olhe para dentro, deixe o guru falar. Você foi um homem que trocava estados e visões mentais com tranquilidade. Você sabe a resposta; pause e deixe vir. Contemple suas “nuvens astrais” de respostas.
D: Sim! Acho que é preciso esperançar! Aqueles que perderam a esperança já entram no debate limitados... E ainda, espalharão o seu drama pessoal junto ao pessimismo rasteiro dos jornalões.
Estou entendendo, caro Jung; você conecta o humano em sua universalidade, depois faz uma conexão com o local, e em seguida conecta a macrovisão dentro das particularidades, e ainda dá uma resposta unindo todos os pontos. Isso é a integração! Isso é, na verdade, lucidez.
J: Isso aí. E agora que lhe ensinei como pensa um guru-sábio-psicólogo, o que você vai fazer com isso? Eu não tenho as respostas que você procura; estou apenas ajudando você a encontrar o caminho dentro de si mesmo.
Não basta querer mudar a realidade se não sabe mudar a si mesmo. Ambas as realidades estão em simbiose com o seu pensar. Agora, uma vez que o humano muda, o seu entorno também muda. Outros arredores mudarão em consequência. E assim alcançamos a fina flor do lótus. É assim que se constrói a grande mandala da vida/realidade.
É unindo e integrando. É preciso unir o guru com o intelectual. Um é só sonho e o outro é só ferramenta. Pensem na força dessa harmonia.
Darcy, inspirado por essa conversa, continuará soprando nos ouvidos dos intelectuais comprometidos com o Brasil.
Aos que continuarão em remorso: Darcy não enviará os demônios — em compaixão, pois estes já possuem demônios que os perturbam. Suas próprias mentes os criam.
A ideia do texto é apontar para o espaço básico da mente que é ilimitado, pois tudo se constrói. Se você não está vendo, não é porque não existe; é porque você ainda não descobriu.
Jung: Darcy, diga-me uma música para relembrá-los...
D: Claro! “O Que É o Que É?” (Gonzaguinha).


