Lisboa - Rio (2025) - Parte 2: Fernando Pessoa no Brasil
Do choque cultural ao samba: a transformação final
PARTE 2 - Pessoa finalmente chegou ao Brasil. 🇧🇷
[...] Tirou os sapatos. Pisou na areia brasileira pela primeira vez. E tudo mudou.
Ficção literária sobre Fernando Pessoa (1888-1935).
📖 NÃO LEU A PARTE 1? [Lisboa 2025: Fernando Pessoa descobre que Deus é brasileiro]
NESTE TEXTO:
✅ Pés descalços na areia (adeus, melancolia)
✅ Choque cultural carioca (Exu? Pastor? Arrastão?!)
✅ Machado de Assis resolve Dom Casmurro
✅ Maracanã, Cristo Redentor, caipirinha e samba
✅ Zeca Pagodinho como mestre zen
✅ Mumuzinha e a dança final como Zé Pilintra
Entre! O samba te espera. 🌊
Pessoa, ao desembarcar, tocou o solo brasileiro pela primeira vez e sentiu um arrepio. Aquela areia que tocava nos seus sapatos sujava-os e o convidava a tirá-los. Pois assim fez e teve um grande alívio: “Ahh! Que longa viagem!”
O peso do sapato parecia ter-lhe tirado inclusive a melancolia. O ar estava diferente, era puro e fresco. A única coisa que estava incomodando era aquele tanto de gente cumprimentando-o sem conhecê-lo. Eram sorrisos de pretos, brancos, japoneses e tantos outros da salada brasileira.
Fernando, certamente, pensou em fugir, mas o solo que o tocava puxava para si; o solo tirava-o da mente e colocava-o no corpo. Era uma dança entre o espírito e o carnal.
F: Agora que estou aqui, o que devo conhecer?
Passou um baiano e disse: “Salve, grande Exu!
F: Oi, o que você está dizendo?
Baiano: Ora, o senhor, com essa roupa, está vestido de Exu, né?
F: Exu? O que é isso?!
B: Ahh, deixa pra lá ... tô só zorbando!
Fernando era bombardeado a cada 30 segundos com o choque cultural. Este era brutal e não o perdoava.
Passou um outro senhor: “O pastor, atrasou, é? A igreja é logo ali. Igreja de Cristo em Pessoa, nosso rei.
Fernando, no alto da vaidade: “Será que meus poemas atravessaram séculos? Ou estou a delirar? Será que ainda estou no céu ou isso é real?
O real era tão confuso que pensou que estava a sonhar.
F: Bom, deixa-me acostumar com o que é familiar primeiro. Fernando gritou para um rapaz de aparência intelectual: “Ei, viu, onde estão os Imortais? Quero conhecer a Academia de Letras de vocês.
Rapaz: Koé, menor, os Imortais eu não sei, mas a Academia é logo ali.
Rapaz: Cuidado, hein! Se ficar de bobeira por aqui, ‘os menor’ lhe passam um arrastão.
F: Fernando agradeceu e partiu.
Ao pisar na Academia, Fernando relaxou. Estava em casa! Pensou: “Ah, que vontade de falar com Machado de Assis.”
Chico, lá do céu: “Machadinho, o Pessoa está lhe chamando. Desce porque se o homem está lá é por algum bom motivo do Painho.”
Machado, em espírito, aparece: Olá! Grande escritor! O que Vossa Pessoa gostaria comigo?
Fernando soltou um palavrão que aprendeu com os jesuítas: Carajo! Você por aqui? Que loucura! Que susto, Machado!
F: Machado, estou até envergonhado agora, Vossa Senhoria em pessoa... eu não sei como explicar, sabe, lá do céu estava a lê-lo. Enfim, vamos ao ponto: Machado, que diabos aprontaste conosco?! Capitu traiu ou não o Bentinho?!!
F: Criou até uma divisão lá no céu: time Bentinho traído, time da Capitu inocente.
Machado deu uma grande gargalhada! Hahahahaha. Lembrou-se até de seu tempo encarnado.
(Caro leitor, caso não tenha interesse em Dom Casmurro e queira pular, desça até a próxima linha/título e siga com Fernando.)
Machado: Deixe-me explicar. Quando eu escrevi Dom Casmurro, foi nove anos antes de minha morte, ou seja, já era homem maduro. Dói-me um pouco saber que muitos ficaram nessa de traição. Mas faz parte do marketing intergeracional.
M: Agora, há uma linha no livro que me revela um pouco... Eu lia os grandes psicólogos. Era o começo da psicologia. Sabe, minha mulher, que era o maior tesouro intelectual, foi “escondida” da história. Ela ensinou-me sobre os clássicos portugueses e a literatura inglesa.
M: Sabe, Bentinho era muito de mim: eu tinha ciúmes, era introvertido — dizem meus biógrafos que sofria de epilepsia — era vaidoso, como ‘todo’ grande professor. Tinha amigos ricos e da alta sociedade. Ora, Rui Barbosa, aquele da elite de SP, Membro da Bucha, sociedade secreta da USP do século XVIII e XIX... Fez até elogio no meu fúnebre.
Há muitas nuances que o leitor terá de pesquisar, não há tempo para revelar a história.
M: O leitor mais atento, notará que havia muito de mim em Bentinho e muito da minha mulher em Capitu. Claro que há o samba entre o real e o imaginário; não posso negar.
M: Vamos ao livro: este possui várias camadas de leitura. Todas são válidas, pois depende da mente do leitor. Não enxergamos o real, enxergamos através de nossos filtros, ou seja, nossa gestalt. É coisa que a gente só faz no final da vida, há toda minha bagagem intelectual ali. Eu não era nada bobo, estive a vida toda ao redor de outros grandes. Aprendi muito pela escuta.
M: A camada da psicologia ficou como um “segredo”. Pois é preciso sabê-la para entender os elementos em jogo. Sabe, daí do Brasil, havia uma grande admiradora da minha obra, a psiquiatra Nise da Silveira, aquela que trocou cartas com Jung, o grande suíço.
M: Não posso revelar tudo, por agora, mas no futuro o Chico me retorna e eu conto. Aos curiosos, terão de ler Jung, dominá-lo e depois refazer a leitura de Dom Casmurro. Ali há um grande segredo: Individuação. A fina flor do lótus!
M: Agora, vamos a uma camada superficial: traiu ou não? Há elementos suficientes para provar que sim. A desesperança de Bentinho e Capitu ao não ter um filho fez com que ela tivesse um caso com Escobar. Quando ela disse que era a vontade de Deus, ela estava sendo real; ambos rezaram por um filho.
M: Quando o filho nasceu, e começou a parecer Escobar, este foi discutir com Capitu. Lembram de quando Bentinho volta do teatro e o amigo está no corredor de sua casa? Então, o título e a conversa eram sobre Embargos de terceiro: no mundo jurídico, é um tipo de ação judicial que visa proteger a posse ou propriedade de um bem apreendido por decisão judicial proferida em processo do qual o possuidor ou proprietário não fez parte. Entendes? deixei muitas pistas.
M: E outra, talvez, a relação de Capitu com Escobar era até anterior. Ela não queria que Bentinho contasse o caso deles para o amigo. Ela disse: “não era direito dele contar o que também a envolvia.”
Todavia, não há dúvida: Capitu era uma boa mulher e amou a vida inteira Bentinho. Disse a Ezequiel, no fim da vida, que o pai era grande e tudo mais, mesmo após a separação.
M: Enfim, Fernando, deixe-me encerrar este monólogo. Desculpe-me alongar. Ah, e lembre-se do poetinha Vinicius: “há sempre uma mulher à sua espera.”
E, ora, não poderia esquecer-me do conselho que deixei em Dom Casmurro: “Amai, rapazes! e, principalmente, amai moças lindas e graciosas; elas dão remédio ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!”
M: Adeus, Fernando, passe bem! (respire e tome uma água leitor! rs)
Fernando ficou com a boca aberta!
Era uma aula! E esse final tocou o Zorba, que mora em cada um de nós, aquele que dança. E, Fernando pensou: “chega de livros por hoje, quero ver o sol e tomar banho de mar."
Já na saída, ao caminhar pelo calçadão, avista uma loja de roupa. Entra, compra roupas leves e tropicais, padrão brasileiro!
F: “Ah, agora sim, sinto que um novo mundo se abriu: chinelo, bermuda e camisa florida. E lógico, um chapéu Panamá.
Ele não estava entendendo nada. O seu balançar era outro, o seu olhar tinha brilho e vivacidade; ele olhava com desejo aquelas belas mulheres... e não disfarçava!
Fernando andou de bondinho, tomou sacolé e queria mais!
Um sujeito passou pela rua e viu aquele homem descolado: “ô, senhor, tá de bobeira? Cola com ‘nóixx’. Tamo indo ver o jogo do Flamengo!
Fernando foi... Ao entrar no Maracanã, tomou um susto, não sabia que era possível tanta gente vibrando apenas por um jogo de futebol.
E o povo cantava apaixonadamente!
Em dezembro de 81,
Botou os ingleses na roda!
3 a 0 no Liverpool,
Ficou marcado na história!
E no Rio não tem outro igual;
Só o Flamengo é campeão mundial;
E agora seu povo...
Pede o mundo de novo! Após o jogo,
Depois de tantas emoções inéditas para o nosso grande Pessoa, tomou um táxi e foi ao Cristo Redentor. É claro!
Estava tendo um show, tocava-se Alma Carioca, Cristo Redentor.
Fernando: Ave Maria! Isso daqui é transcendência pura! Nem no céu me senti tão vivo!
Zeca Pagodinho chegou próximo de Fernando e disse: “dança, meu amigo! aqui, siga o mestre do samba.
E assim Fernando aprendeu a sambar!
Zeca: Fernandinho, tome aqui um gole desta água abençoada. Era a digníssima caipirinha de limão! que descia no ritmo da melodia.
Zeca ainda disse, antes de Fernando descer: “Fernando, lembre-se que camarão que dorme a onda leva. Deixa a vida te levar, homem!
Fernando agradeceu três vezes, tamanha era a gratidão. O ritmo do samba vibrava a sua alma inteira! Era uma cura espiritual à brasileira.
No dia seguinte, após a sua estadia no Copacabana Palace — é verdade que ele não tinha dinheiro para isso, mas o gerente disse que era só ler o poema Sou um Guardador de Rebanhos e alguns outros. Tudo ficaria certo!
Finalmente!
Com os pés na areia, Fernando dançava e cantava: “dois amantes namorando à beira da praia, nada pode ser melhor pra gente se amar... Pé na areia, A caipirinha, Água de Coco, a Cervejinha!”
O coqueiro de Machado soprou ao Fernando: “preste atenção, não há problema um homem de 47 anos namorar. Eu sou um coqueiro velho e entendo desta arte!
E quem faltava neste dia?
A NEGRA! Que tinha em si todos os Brasis, corria em sua veia a força tropical, a força do tão sonhado império de Pessoa, era aquilo que Darcy disse ser a nova Roma. Que alegria!
Olá, caro senhor! Chama-me por Mumuzinha, aquela que vai dar um jeito no seu Bentinho!
M: Se você souber sambar, vamos nos dar bem!
Fernando entrou em êxtase espiritual! Baixou-se nele todos os grandes mestres do amor para ajudá-lo.
Ele tirou o seu chapéu Panamá, colocou-o na moça, e começou a sua ginga.
E dançava loucamente, parecia o Zé Pilintra, de tanto que girava!
E daí… Fernando sentiu o presente de Oxalá. Que presente! Que festa! Que alegria! Que samba! Que amor! Que dia enlouquecedor!
Fernando aos céus: “Deus Pai, Oxalá, se o povo quiser, deixe-me ficar mais um pouco. Promete criar um novo heterônimo — aquele que falta!
Agora eu entendo o que é a Felicidade que cantou Seu Jorge.
F: Um salve a toda comunidade lusófona! Em especial, aos meus amigos brasileiros!
E ao rapaz que vos escreve: este deixou-me sambar na mesma língua que tanto escrevi!
Não é só ficção… É cura espiritual à brasileira. Sinta o movimento! Compartilhe!
🎭 REFERÊNCIAS DA PARTE 2:
MACHADO DE ASSIS (1839-1908) Maior escritor brasileiro. Autor de “Dom Casmurro” (1899), romance onde o narrador Bentinho suspeita que sua esposa Capitu o traiu com o melhor amigo Escobar. Debate literário até hoje: traiu ou não?
ZÉ PILINTRA: Entidade da Umbanda. Malandro elegante, protetor dos boêmios. Representado com terno branco, chapéu panamá, charuto.
ZECA PAGODINHO: Sambista carioca. “Deixa a Vida Me Levar” (2002) virou hino da filosofia de vida carioca.
SEU JORGE: Cantor, ator. “Burguesinha” tem verso: “Eu só quero é ser feliz”
NISE DA SILVEIRA (1905-1999) Psiquiatra brasileira, pioneira em tratamento humanizado. Correspondeu-se com Carl Jung sobre arte e psicose.
FLAMENGO 1981: Time carioca venceu Liverpool 3x0, sagrou-se campeão mundial.
MARACANÃ: Maior estádio do Brasil (78 mil pessoas). Templo do futebol.



Incrível. Deixou até as músicas.