Reflexões: 'passarinhagem', castelo aberto, festa da vida!
Um grande salve a todos os grandes que se foram!
🌿 O JARDIM DO SENTIDO: DO PICA-PAU AO INFINITO 🐦
Um pensador na torre. → Montaigne Um gênio na rede. → João Ubaldo Um pica-pau na madeira → Ilha Bela - SP E o arrepio de quem conversa com o céu [...]
Esta é uma crônica de refúgio. Natureza + Poesia + Presença = Transcendência.
Três verdades sobre o que é estar vivo:
O mato cura o que o ruído adoece ✅ Felicidade é uma “passarinhagem” ✅ A obra vive mais que o autor ✅
BEM-VINDO AO JARDIM. 🍃
Entre! A rede está armada. O pássaro está cantando.
Acordei pensando: Montaigne escrevia em um quarto no alto de uma torre. Os peripatéticos andavam enquanto refletiam. Jung construiu um minicastelo — representação do Self — para tomar refúgio e pensar.
Eu imagino que João Ubaldo escrevia, muitas vezes, na praia, haja vista que ele morou na ilha de Itaparica. Tenho enorme admiração por ele; foi um grande brasileiro que escreveu sobre o povo brasileiro e mantinha esperança neste; sua escrita refletia a sua vida. Em toda entrevista, você vê um sorriso generoso, caloroso e humano, além de despreocupado.
Alguém que cresceu deitado em rede, andando pela praia, tomando sol e banho de mar certamente há de sentir diferente.
E eu? Ora, como bom brasileiro, também gosto de estar e refletir ao redor do mato, da natureza. Inspirado na paisagem de Ilhabela, criei um jardim tropical, com minhas mãos e suor, só para estar ao lado de grande beleza e harmonia.
Não preciso de castelo, torre, nada disso. Só preciso estar ao lado do que é vivo para me encontrar. A natureza é isso! O meu castelo é aberto e vasto. Acordo e estou sempre ao redor de pássaros!
Ah, como é bom apreciá-los em sua “passarinhagem”. A vez que fiquei mais feliz foi quando vi um pica-pau. Puta que pariu! A batida na madeira ressoava no meu coração; por um momento, fomos um só — o TAO que faz o pica-pau bicar era o mesmo que me faz contemplar.
Minha dica: caso alguém esteja triste, que vá ver passarinhos. Você entenderá o que é a grande festa da vida.
Reflexões aleatórias no Substack
1. Outro dia, li uma postagem assim: “pedi aos meus alunos para escreverem sobre o que é um sapo. Uma aluna escreveu assim: o sapo é uma manchinha verde que pula e tem o potencial de virar um príncipe”.
Ahahaha! Ri demais. Pois então comentei: eis a diferença de uma filósofa-poeta!
2. Uma outra era alguém falando que jornal não trabalha para leitores, ou seja, o único negócio que não preza pelo cliente-alvo.
Pois então, tenho de concordar. Os jornais brasileiros pós-crise de 2013 não foram mais os mesmos. Hoje há muitos dados e brevidades, e pouca poesia. Ah, só quem já teve o prazer de ler, por exemplo, um José Simão saberá do que quero dizer.
Todavia, vamos lembrar algo importante sobre a decadência do jornal: a crise de 2013 que se espalhou pelo Brasil acabou com a impressão do papel. A mudança do físico ao digital se deu pela crise. Uma indústria/setor inteiro do papel se extinguiu. Ceifou milhares de empregos. Ora, a grande Editora Abril faliu! (Foi vendida posteriormente a um banco por um valor simbólico.)
Desde então, os jornais deram uma alavancada na época da Lava Jato. Todavia, a toxidade gerou uma ressaca nos grandes leitores, e estes migraram para outros lugares. Os jornais, para não fechar as portas, migraram para o paywall. Daí, matou de vez o negócio. Restou só ruído informacional raso, às vezes escrito por IA.
Agora, em vez de pensarem como reestabelecer a credibilidade e chamar leitores, estão vendendo cursos e indicando produtos. O desespero é grande. Mas já adianto: não vai funcionar; chegaram atrasados no business de curso, há tantas plataformas melhores, ainda assim, poderá gerar algum trocado para cobrir certas despesas.
3. O problema da cabeça do homo economicus é ignorar o humano. Certa vez, um editor foi contratado para reestabelecer a revista Playboy. Lembram que tentaram revivê-la? Pois então, foi algo que gerou bastante publicidade e movimentação comunicacional. Parece que estava indo bem; no entanto, a pessoa responsável contou que os novos donos (na época) começaram a trocar o pessoal que entendia do negócio de revista por gerentes “técnicos”. Em pouco tempo, o renascimento da Playboy desmoronou. (Não sei exatamente os pormenores dessa história, mas li em algum lugar.)
4. Um rapaz comentou assim: “Passei anos com medo de viver; hoje meu único medo é de não viver.”
Pensei como pensaria o grande Osho ou Sadhguru (risos): Ora, você só trocou um medo pelo outro!
Mas pensei como minha eterna professora, psicóloga, sábia, diria: se há um medo... o que você faz com isso?
5. Postagem sobre a vida dos escritores: “Vários fizeram grandes folias em vida; contudo, suas obras permanecem intocadas.”
Certa vez, um amigo do Fernando Pessoa disse: “você tem compromisso dia tal?” Ele disse: “tenho.” O amigo, surpreso: “uai, que compromisso você tem?”
Fernando Pessoa: “Tenho um compromisso com a minha obra.”
O amigo ainda insistiu, dizendo que ele nem desfrutaria daquilo.
Fernando: “não há problema. Só de saber o que será de minha obra no futuro, já desfruto agora.”
O sentido somos nós que damos. Um homem que tinha tantos Eus certamente não era alguém sem imaginação.
Salve aos Grandes!
Se Fernando estiver no céu, saiba que cada delírio seu ressoa no meu coração. E no coração de tantos que buscam a sua obra — Senti um arrepio ao escrever isso; acho que ele já entendeu. rs.
Por fim, vamos de Camões. Camões faz uma breve crítica, em seu livro, aos homens brutos. Ele esperava que seu grande livro trouxesse bons rendimentos. A família Gama não deu a mínima; posteriormente, um certo alguém, acho que foi o rei, acabou concedendo-lhe uma mísera pensão anual.
Acendam uma vela ao Camões. O sujeito que escreveu Os Lusíadas não merecia ter morrido em situação de miserabilidade. (Senti outro arrepio; a festa lá no céu está forte hoje!)
Um grande salve a todos os grandes que se foram! Retornaram ao pó, mas o Grande Sopro permanece.
Ariano Suassuna: “Eu gosto é de gente doida!
“[…] Meu pai quando era governador, construiu um hospício e colocou o nome do maior psiquiatra brasileiro da época. No dia da inauguração, muito orgulho da obra que tinha feito, meu pai chegou lá, os médicos todos de branco e entraram os doidos com uns carrinhos de mão que haviam sido adquiridos pelo governo pra iniciarem a tal psicoterapia pelo trabalho.
Um dos doidos estava com o carro de mão de cabeça pra baixo. Aí meu pai chamou ele e disse. “Olha, não é assim não que se carrega, é assim…” E o doido respondeu, eu sei doutor. Mas é que se eu carregar de cabeça pra cima eles colocam pedra dentro pra eu carregar.
Não era um doido, era um gênio de uma cabeça formidável!”
Espalhe a “passarinhagem”. A reflexão. A leveza. 🐦
📖 REFERÊNCIAS E CONEXÕES DA ‘MATA’
MICHEL DE MONTAIGNE (1533-1592): O pai do ensaio moderno. Sua torre não era prisão, mas laboratório da alma.
JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941-2014): A prova de que a alta literatura pode ter cheiro de mar e sorriso de quem vive deitado na rede.
O “HOMO ECONOMICUS”: A visão de mundo que troca a poesia pelo lucro rápido e acaba matando a própria galinha dos ovos de ouro (como os jornais e a Playboy).
FERNANDO PESSOA (1888-1935): O poeta dos heterônimos. Sua conversa sobre o "compromisso com a obra" revela a fé inabalável na imaginação. Pessoa não precisava colher os frutos em vida; o fato de saber que a obra existiria no futuro já era o seu banquete.
LUÍS DE CAMÕES: O gênio que deu língua a um povo, mas morreu sem pão. Um lembrete de que o mundo nem sempre reconhece o “Grande Sopro” enquanto ele sopra.
ARIANO SUASSUNA: O mestre da “doidice genial”. Sua história do hospício nos ensina que, às vezes, o louco é apenas quem entendeu a lógica do sistema e decidiu subvertê-la.
O TAO DO PICA-PAU: O momento de unidade mística onde não há observador nem pássaro, apenas a batida ritmada da vida.

