Uma Manhã Completa
Didion, Braga e a pergunta que o jardim não respondeu 🌿
JARDIM TROPICAL 🐦
Manhã → Jardim Companhia → Joan Didion + Rubem Braga
O que perdemos quando tudo vira mercado?
O que contemplei esta manhã:
Dois escritores ✅
Uma pergunta que ficou ✅
O inútil como precioso ✅BEM-VINDO 🌊
Entre o ruído e a contemplação
NOTA: Escrita + atenção + algoritmo
Entre! O mate tá pronto. 🧉
O dia amanhece ao som dos pássaros. Observo as plantas do jardim balançando calmamente — é uma boa manhã, clima tranquilo. Fico nesse momento a contemplar o silêncio da natureza.
Alguns dias são assim, completos. Não há o que escrever. Outros são ruidosos; esses são dias de sobrecarga, ou seja, a escrita se torna impossível.
Assim estão meus dias, entre o ruído e a contemplação. Na companhia matinal de hoje tenho Joan Didion e Rubem Braga — é um deleite lê-los: primeiro pela voz, segundo pelas observações, terceiro pela coragem e, por fim, pela humanidade.
Quando Obama entregou a Medalha Nacional de Humanidades a Joan, ele disse: “Por que ainda não entregaram o prêmio a esta mulher?”
Ora, se Obama não estivesse tendo que performar naquele evento, ele daria a resposta: Joan tinha um compromisso com a verdade.
A mídia/cultura mainstream não foi criada para tal fim — a questão gira em torno de narrativas, e Joan tinha a sua própria.
Fico me perguntando onde estão os novos escritores. Sinto vontade de ler uma voz que interprete estes tempos.
A dificuldade financeira do jornalismo matou os escritores? Muitos escritores brasileiros vinham dessa área. Ou foi a crise de atenção das redes sociais?
Ou seria a situação do escritor/empreendedor do nosso tempo?
Quando precisa escrever, editar, dar cursos, fazer seu marketing, postar nas redes, gerir suas finanças, lançar produtos... tudo isso é válido, mas toma tempo e energia do processo criativo.
Há mais uma possibilidade sombria: o escritor de nicho. Ele escreve exatamente para um determinado leitor e é recompensado, pois o algoritmo entrega o produto ao consumidor. Se a tendência continuar, teremos todo tipo de escrita, mas longe do diálogo e da interpretação ampla que tivemos no passado.
Mudou a mídia, mudou a sociedade. Da verticalidade surgiu a horizontalidade, como bem descrita e aprofundada por McLuhan. Todavia, a praça atual não é aberta — é fechada, controlada e impulsionada pelo critério do algoritmo.
A maior parte da internet aberta foi sequestrada para dentro das plataformas. A publicidade migrou para as big techs e o destino de todo produtor, de qualquer conteúdo, ficou refém do próprio público (que o algoritmo alcança), da distribuição e das migalhas que as plataformas pagam.
Mais uma possibilidade: a crise de sentido — sim, é uma discussão mundial — fez do cidadão e do artista um mero consumidor.
Quando todo dilema da vida humana se torna mercado, perdemos o inútil, o “sem valor”, a beleza que é abundante.
Gostou desta Onda? 🐦
🌐 TEXTOS RELACIONADOS
📚 GLOSSÁRIO
Joan Didion (1934–2021) — Escritora e jornalista norte-americana, considerada uma das vozes mais distintas do Novo Jornalismo. Ficou célebre por misturar autobiografia, reportagem e ensaio em obras como O Ano do Pensamento Mágico (2005).
Rubem Braga (1913–1990) — Cronista brasileiro, amplamente considerado o maior nome do gênero no país. Ao longo de décadas, publicou crônicas em jornais que transformavam o cotidiano em pequenas obras-primas de sensibilidade e linguagem. Obra: 200 Crônicas Escolhidas (1977).
Marshall McLuhan (1911–1980) — Filósofo e teórico da comunicação canadense, famoso pela frase “o meio é a mensagem”. Ele previu a "aldeia global" e analisou como as tecnologias (da prensa de Gutenberg à televisão) não apenas transmitem informações, mas alteram a percepção humana e a estrutura da sociedade.
Medalha Nacional de Humanidades — Maior honraria cultural dos EUA, concedida pelo presidente a artistas, escritores e pensadores com contribuição excepcional à vida cultural americana.



